romantização na literatura
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Saiba o que é a romantização na literatura

A romantização na literatura acontece quando a narrativa transforma uma situação ruim, desconfortável ou abusiva em algo romântico, aceitável e até mesmo desejado. 

Eu comecei a me incomodar e refletir sobre minhas leituras ainda na adolescência. Por mais que não tivesse vivido muito ainda e nem adquirido experiências, me parecia estranho as situações de ciúmes descontrolados e casos de dependência emocional serem retratados como amor. 

Acredito que isso veio das minhas referências de casais não serem as dos livros e da televisão. Eu via pessoas normais, como amigos e familiares, em relacionamentos longos e saudáveis, então não achava certo proibir a pessoa que você gosta de sair ou de ter outros amigos.

No entanto, nem todas possuem referências reais. Como ainda há muito tabu quando falamos em sexo e relacionamentos, é bem comum que as descobertas aconteçam durante a leitura de um livro, ao assistir uma série ou novela. Foi dessa forma que a cultura da romantização na literatura, principalmente de relacionamentos abusivos, teve início. 

Afinal, o que é romantização?

O termo romantizar significa, segundo o Dicionário, “dar à expressão ou descrição de qualquer fato a forma e feição romântica; fantasiar, poetizar: romantizar aventuras, heroísmos”. No entanto, no contexto que estamos conversamos, o termo possui uma conotação negativa.

À primeira vista parece um pouco confuso, eu sei. Mas se pararmos para pensar, como poderia ser bom a romantização de um relacionamento abusivo, onde a mulher apanha do agressor, mas continua com ele? 

Outro exemplo do nosso dia a dia é a romantização desenfreada do “empreendedorismo” de pessoas que, por não terem outra alternativa, precisam se submeter a jornadas de 12 horas de trabalho por dia em empresas como Uber e Rappi.

Então, a romantização na literatura nada mais é do que quando um autor, de forma consciente ou não, enfeita uma situação ruim para torná-la agradável. E não acontece só na literatura: é comum em filmes, séries, novelas e, é claro, na sociedade em que vivemos.

Romantização na literatura

Quando eu era mais nova e li 50 Tons de Cinza, me incomodei com muitas coisas da narrativa, como a inocência da Anastasia, a frieza do Grey, o interesse estranho dele nela. Porém, não via o relacionamento deles como abusivo ou tóxico. Na verdade, naquela época, eu acreditava que relacionamentos só eram abusivos quando envolvia agressão física.

E então Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro, defendeu 50 Tons com as seguintes palavras:

Eu acredito totalmente no direito das mulheres de ter suas próprias fantasias sexuais. Eu acredito em seu direito de escrever e ler fantasias sexuais, e sempre vou defendê-los. Existe dentro de cada um de nós um lugar secreto onde os nossos desejos reinam sem interferência. Aquele lugar secreto é a nossa imaginação. Não estamos falando de pessoas reais. Eu amo a Agatha Christie. Isso quer dizer que eu apoio o assassinato?”

Eu, aos 15 ou 16 anos, achei uma defesa incrível. Tão incrível que, assim que li no Facebook da autora, compartilhei no meu mural. Para minha surpresa, uma garota que estudava comigo comentou na minha postagem. Ela já chegou com os dois pés explicando o quanto o livro era problemático. Entendi o ponto dela? Claro que não.

Mas hoje eu entendo o que ela quis dizer. O Grey era possessivo, ciumento. Perseguia a Anastasia, fazia de tudo para tê-la só pra ele. Não vou entrar em detalhes sobre o BDSM, porque também desaprovo essa parte nos livros, mas hoje vejo o quanto não percebi simplesmente porque não entendia e não era madura o suficiente para entender.

Ah! Hoje entendo a defesa da Anne Rice com outro olhar também (e espero que seja o certo). Não acredito que ela estivesse defendendo o relacionamento dos personagens, mas sim o gênero erótico e mulheres estarem consumindo esse tipo de literatura. Fada sensata, prefiro pensar. 

50 Tons de Cinza foi só um exemplo de livro que romantizou uma situação ruim. Mas depois da publicação dele, houve uma procura bem grande por BDSM (o que poderia ser irresponsável, visto que a autora não retratou bem) e uma idealização de homem perfeito por parte das leitoras do livro, afinal, o Grey era rico, fazia de tudo pela amada e todos os atos dele foram justificados porque, durante a vida, ele sofreu uma série de abusos.

É sempre bom lembrar que mesmo alguém tendo sofrido muito na vida, isso não significa que ela tem passe livre pra revidar nos outros. 

Por último, mas não menos importante, livros são reflexos da nossa sociedade. As pessoas são influenciadas por livros e vice-versa. Simplesmente não me desce a justificativa de que cada um interpreta da forma que quiser. Autores são responsáveis pelo que escrevem também.

Relacionamentos abusivos na literatura

Muitos leitores não vêem o relacionamento da Anastasia e do Grey como abusivo, assim como de outros personagens famosos na literatura, mas porque não fazem ideia do que é estar em um. Só que ninguém precisa ter estado em um relacionamento abusivo para entender o quanto é ruim. Vamos aos sinais mais comuns:

Ciúmes 

Apesar de ser completamente normal sentir ciúmes, o problema está quando a pessoa passa dos limites ao impedir que seu parceiro faça amizades ou converse com outros homens e mulheres. A desconfiança sem motivos e em excesso é um sinal de estar em um relacionamento abusivo.

Coloca a parceira para baixo

Não é legal diminuir ninguém, então porque seria okay fazer isso com uma pessoa especial? Além do mais, isso faz com que a pessoa deixe de confiar em si mesma, já que é uma violência psicológica, e comece a se achar insuficiente. Isso cria uma dependência emocional bem pesada. Por isso, não julgue aquela mulher que, mesmo tendo um parceiro ruim, não consegue sair do relacionamento.

Quer que a parceira mude

Pensa comigo: você conhece alguém e se apaixona. Ela teve uma vida antes de você e seus próprios interesses e personalidade. Querer que o parceiro mude o estilo de vida, roupas, a forma de falar, o cabelo, entre outros, é uma atitude bem abusiva.

Quer afastar a família e amigos

Esse é um dos sinais bem comuns. Afinal, quanto mais frágil e sozinha estiver a pessoa, mais fácil para ser manipulada pelo parceiro.

Invasão de privacidade

Um dos sinais que a maioria das pessoas detesta, e com razão. Se o parceiro persegue, têm acesso às redes sociais para fazer o que bem entender, lê conversas privadas porque não confia… Inclusive, segundo a Constituição Federal, no art. 5.º, inciso X, é um direito fundamental da pessoa humana.

Controle financeiro

Esse sinal é mais comum em um casamento. Isso acontece quando a pessoa quer ter controle sobre o que e como o parceiro gasta o próprio dinheiro, ou então, caso a pessoa não trabalhe, usa o dinheiro para controlá-la.

Violência Física

Bom, violência física é um crime. Ponto final.

Como evitar a romantização na literatura

Como eu disse lá em cima, é bem possível romantizar as coisas de forma inconsciente. Isso acontece quando não pesquisamos o suficiente — sim, para escrever um livro é preciso pesquisar, principalmente quando você não sabe do que está falando —, nunca vivemos aquela situação ou quando somos imaturas.

Aposto que se você foi leitora de fanfics como um dia eu fui, já deve ter lido romances eróticos escritos por meninas com menos de 14 anos. Nos meus tempos de Fanfic Obsession (inclusive, chocada que ainda existe) e Wattpad, já li muitas histórias que hoje passaria longe. Temas pesados eram frequentemente romantizados, como estupro, pedofilia e importunação sexual. Sim, crimes.

Antes que me joguem pedras: não, não é preciso ter vivido algo para escrever sobre. Mas o mínimo que um escritor deve fazer é pesquisar. Esteja ele escrevendo uma fantasia em um universo novo ou um romance de comédia que se passa no ano de 2030. 

Fazendo pesquisa — seja em fontes escritas como livros, revistas e jornais, ou através de entrevistas pessoais — você adquire informação. A informação que você coleta permite-lhe operar numa posição de escolha e responsabilidade. Você pode escolher usar parte, tudo ou nada do material que recolheu; a decisão é sua, ditada pelos termos da história. Não usá-la porque não o possui não lhe oferece qualquer escolha, e sempre conspirará contra você e sua história.”

Manual do Roteiro – Syd Field

Antes de começar a escrever o meu primeiro livro — Vertigo, para quem não conhece — pesquisei muito na internet, li muitos artigos e conversei com pessoas que tinham o estilo de vida apresentado no livro. E claro, tomei todo cuidado do mundo para não ser mal interpretada, ainda mais porque falo sobre relacionamento abusivo e feminismo.

A pesquisa evita que o escritor cometa gafes, escreva merda e seja ofensivo com outras pessoas ou culturas. Quanto mais estudamos, pesquisamos e entendemos sobre a vida, mais conhecemos sobre tudo e mais temos para compartilhar. 

É com bagagem que começamos a entender onde estamos errando. O que estamos romantizando. O que é bom e o que é ruim. Na literatura não é diferente.

Conclusão

A ideia inicial era escrever esse texto metendo o pau em livros, filmes e séries que romantizam coisas horríveis como relacionamentos abusivos. Eu poderia citar vários, escrever centenas de páginas e até fazer uma lista. Mas então eu lembrei daquele comentário no meu Facebook, que não foi muito didático, tentando me explicar o porquê da Anastasia estar em um relacionamento abusivo.

A gente vence educando, e educar não tem nada a ver com quem grita mais alto.

Se quiser saber mais sobre romantização na literatura, cultura pop ou na nossa sociedade, fica a indicação do episódio sobre romantização de relacionamentos abusivos do O Guarda-Roupa Podcast. Eu faço parte do podcast também e a discussão foi uma troca muito legal sobre o tema. Vale a pena conferir! 🙂

Qual a sua opinião sobre a romantização na literatura? E quanto a romantização em filmes, séries e de situações ruins cotidianas? Comenta aí embaixo, vou adorar saber! ♥️

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Maria Paula
Maria Paula
9 months ago

Adorei este texto! Concordo com você e acho que chega a ser absurdo o quanto que coisas negativas são distorcidas para parecerem desejaveis ou atraentes em diferentes formas de entretenimento, e creio que isso só serve para criar ainda mais destas situações na vida real.

Raianne Viana
Raianne Viana
9 months ago

Texto maravilhoso! Eu já estou bem cansada de ver tantos livros, filmes e séries que continuam a retratar relações nada saudáveis e tentando passar uma imagem de que aquilo é normal. Que mais pessoas leiam esse texto e reflitam sobre isso!

Tatianices
9 months ago

E como sempre, você arrasou em seu post. Obrigada por isso, Marie! Vou pensar bastante nessas palavras. Gostei muito desse trecho aqui: “Por último, mas não menos importante, livros são reflexos da nossa sociedade. As pessoas são influenciadas por livros e vice-versa. Simplesmente não me desce a justificativa de que cada um interpreta da forma que quiser. Autores são responsáveis pelo que escrevem também.”

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[…] muda. Embora a psicopatia não deixe de ser evidente (importante sinalizar que em momento algum é romantizado a vilania), Arlequina cria um afeto pela garota e isso a ajuda, e muito, a superar a perda que foi […]

Carol
Carol
5 months ago

Demais esse texto! Informativo e reflexivo na medida certa, sem falar na importância do assunto. Parabéns, Marie!

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