Carne de Primeira, conto escrito por Marie Pessoa
Textos autorais

Carne de primeira, mini conto de Marie Pessoa

Aviso de conteúdo: sangue e assassinato.

O cheiro de morte me acorda. Abro os olhos com dificuldade devido a falta de luz do ambiente e percebo que o cheiro está próximo. Na minha frente, para ser exata. Vem de um corpo, possivelmente humano, que definha. Só consigo ver os cortes grosseiros jorrando sangue. Se já não estivesse acostumada, teria vomitado a ração que repousa em meu estômago.

Estou pendurada pelos braços e com uma mordaça na boca, o que me impossibilita de conversar com o ser prestes a morrer. Não que houvesse muita coisa a ser dita. Considerando sua morte iminente, devem ter arrancado sua língua, como um dia farão comigo. Mas, se estivesse em seu lugar, gostaria de palavras de conforto. Imagino que morreria mais rápido assim.

Meu coração dispara quando sinto mãos macias em minha barriga descoberta. O único lugar que ainda não cortaram. Sei que é ela porque o toque continua e sobe até meus seios. Fecho os olhos, curtindo o momento. Quando retorno os sentidos, estou no chão. Suspiro fundo ao perceber que meus braços estão livres. Não sinto mais os membros como um dia senti. 

— Vem comigo. — Ela está com uma mão estendida e a agarro com força para levantar. Estamos frente a frente. Me sinto minúscula perto dela, mesmo tendo 1,80cm de altura; ela é drasticamente mais alta. Preciso olhar para cima, mas sequer posso observar suas feições. Está escuro.

Continuo agarrada em sua mão e a acompanho, em passos rápidos, até um local em que nunca estive antes. Meus olhos ardem com a mudança de cenário. Está claro demais comparado com o curral e preciso de um tempo para me acostumar. 

Estamos em uma sala quadrada e totalmente branca, cujo único objeto é uma enorme pia de metal. Me aproximo dela e olho para dentro. Sangue. Isso me faz soltar um riso abafado. O cheiro de ferro já não me causa repulsa. Para falar a verdade, lembra meu lar.

— A noite chegou— ela aponta para a janela e mostra o sol que está sumindo entre as árvores. — Fuja.

Envolvo meu corpo com os braços, assustada com a possibilidade de ser livre novamente. Há quanto tempo estava nesse lugar imundo? Semanas? Meses? Perdi as contas. Num dia corria na praia, noutro estava presa aqui com meus familiares e outras milhares de pessoas. 

Fui obrigada a vê-los serem alimentados à força e depois cortados em pedacinhos pelos seres não identificados. Mas ela é diferente dos outros. Desde o início, demonstrou compaixão. Todos os dias me solta por algumas horas, permitindo que eu volte a sentir meus braços, meu corpo. E agora, sozinha, planeja minha fuga.

— O que eu faço? — sou surpreendida pela minha voz fraca. Olho fixamente para ela e torço para que vire o rosto para mim, mas sou ignorada completamente. Ela me deixa sozinha e fecha a porta. 

Vasculho a sala em busca de algo que possa me ajudar. Tudo que encontro é uma camiseta. Visto-a e abro a janela, pulando para fora daquele lugar.

Eu corria há exatos cinco minutos quando tropeço e caio no chão. Os galhos amortecem a queda e sou obrigada a olhar para baixo, o que estava evitando. Minhas pernas não foram poupadas por eles. Observo com horror as lacerações profundas que voltaram a sangrar com o tombo. 

— Merda, merda — sussurro e olho para os lados. A única luz vem da lua, ainda tímida entre as nuvens. Eu não conheço a trilha para fugir. O que pode acontecer se me encontrarem? 

Balanço a cabeça, afastando os pensamentos negativos. Encosto na maior laceração, que cobre minha coxa inteira, e mordo os lábios para evitar fazer barulho. Os malditos sequer usaram uma lâmina com bom corte. Como se a minha carne fosse inútil para eles. 

Uma brisa suave passa pelo meu rosto. A natureza está comigo nessa fuga. Entre tantos, fui a única a conseguir escapar. Ainda podia sentir todos aqueles corpos encostando no meu, todos suados, sangrentos. Sinto o cheiro de podridão na camiseta que roubei. Se não fossem as marcas vermelhas, ela seria totalmente branca. 

Parte de mim deseja voltar. Não para matá-los, como pensei tantas vezes enquanto delirava no matadouro. Quero voltar para ela, a responsável por me fazer sentir esperança. 

Levanto com cuidado. Não sei o quanto estou debilitada. Com a quantidade de remédios que ingeri, me sinto entorpecida perante a dor. Sinto apenas saudades. Saudades dela. Eu sei que é tolice pensar nisso. Eles devoraram o meu irmão, mesmo com toda aquela carne, em segundos. Eu não tinha chances; e ela muito menos. 

Dou uma última observada ao redor. Estou fora da trilha, provavelmente em algum matagal próximo ao matadouro. Ela disse que não tinham como me ver à noite. A nossa visão é horrível à noite. Foi o que ela sussurrou diversas vezes e eu não dei bola.

Não estou feliz por fugir. Penso nisso enquanto caminho devagar pelo matagal, usando meus braços como facões para desviar dos galhos e folhas que dificultam a visão. 

A imagem do rio de sangue de quando mataram meu irmão aparece a todo momento em minha mente. A voz dele, ao fundo, me chama de covarde, fraca. Eu sou fraca por não aceitar uma reprodução involuntária? Era isso que acontecia com quem tinha útero ali. Procriação, para gerar ainda mais bebês e ainda mais carne. Eu não quero me tornar uma carne de primeira. Sou covarde por isso?

Começo a tossir sem qualquer razão. Meu peito dói como se tivesse algo preso à garganta. Que tipos de remédios eu havia ingerido? Disseram que eram antibióticos para o meu crescimento, mas a probabilidade de ter ouvido errado é alta. Depois de tantas semanas naquele imundice, estava surpresa por simplesmente ainda saber como andar.

Um barulho alto, como um tiro, me assusta. Parece distante de onde estou, mas minhas pernas tremem. Começo a correr. Como não posso usar os braços para manter o ritmo da corrida, fecho os olhos. Não quero machucá-los. 

Sinto cada vez mais dificuldade para respirar. Meu coração, pulmão, sei lá o que, está me sufocando. Paro de correr. Além da dificuldade para respirar, a barriga também dói. Uma dor que me corrói por dentro e me faz cair de joelhos. 

Ouço galhos quebrando. Não há vento e nem brisa para isso. Viro para trás e me surpreendo ao vê-la. Os cabelos longos e brancos cobrem todo seu corpo nu. Ela tem um sorriso gentil nos lábios pretos. Quanto aos seus olhos vermelhos, é impossível saber se brilham. Como não havia percebido o quanto ela é linda?

— Achei — ela diz com a voz estridente. O sorriso se estende e os dentes afiados ficam visíveis. Estremeço com a visão. Se não fosse ela, voltaria a correr.

— Você vai comigo? — a pergunta sai num sussurro, mas sei que ela ouviu. 

Ela se aproxima em silêncio. Dessa vez, não ouço seus passos. Meus olhos estão fixos em seu corpo, que sempre tive curiosidade de ver desnudo. Não há marcas ou feridas como o meu. A pele mais branca que papel brilha agora com a luz da lua. As partes mais importantes estão cobertas pelo cabelo, e quase deixo escapar dos lábios o quanto desejo vê-las.

Prendo a respiração quando ela se ajoelha à minha frente. Percebo que metade de sua cabeça é lisa, deixando-a com uma aparência ainda mais extraterrestre. Os olhos, grandes e vermelhos, me encaram com curiosidade. Abro um sorriso e sinto uma lágrima escorrer pela bochecha. Não sabia que restavam lágrimas em mim.

De repente sinto sua mão em meu pescoço. O toque é leve e suave e me faz suspirar, como das muitas vezes em que ela me acariciava durante as rondas no matadouro. Continuo a sorrir, dessa vez mostrando meus dentes que mal servem para mastigar devido a ração que me davam. 

As unhas dela, que mais parecem garras, se fincam contra a pele fina do meu pescoço. Tenho vontade de beijá-la, mas fecho os olhos enquanto aceito o meu destino. Não sinto dor quando elas finalmente atravessam a pele. Ao pé do meu ouvido, ela sussurra com a voz sedutora:

— A melhor carne é a do animal que não sabe que está prestes a morrer.  

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